domingo, 5 de junho de 2016

Uma Crônica: Eu nos Seminários- vivências textuais

Oficina de Leitura e Produção de Textos é um dos componentes curriculares de primeiro semestre do curso de Letras Vernáculas da minha Universidade. Uma disciplina eminentemente prática e que produziu em mim, as melhores expectativas. Vou escrever, escrever e escrever, dancei, feliz, em pensamento e de fato, escrevi.  Nosso bom Lucas, aluno de doutorado, assumindo com muita competência a condução da classe como parte do seu estágio docente, bem o sabe: importunei-o não poucas vezes com textos fora do script, como uma pedinte faminta por atenção literária.
Quando a palavra seminário foi proferida certo dia e definiu-se que seria este um dos instrumentos de avaliação, abriu-se o chão do céu onde eu me sentia viver e um calafrio percorreu-me  o corpo e a alma enquanto afundava nas águas do poço escuro do medo.  The winter  is coming, essa imagem do próximo livro da série literária The games of thrones , do George R.R. Martin, assomou à minha mente e vi-me quase congelada com tudo no meu entorno, mergulhada num inverno hostil e devastador.  Acabou-se o meu conforto.
No meu íntimo protestei com um pensamento meio anêmico, um débil lamento de alguém vencido: “mas eu queria apenas escrever”.  Com pesar constatei que não podia mais enganar a mim mesma.  Havia aprendido no decurso das aulas, que o próprio conceito de texto era bem mais amplo do que a definição a qual ainda me apegava; não se reduzia a texto escrito.  Entre outras referências, lembro-me de uma estudiosa na área, de sobrenome Goldstein, a quem fui apresentada através de um livro de sua autoria. A Goldstein enfatiza com todas as letras que toda produção linguística que apresenta sentido completo e unidade, é texto, seja oral ou escrito.   Com isso, realmente eu me senti a própria encarnação do senso comum.  O fato é que era chegada a hora de exibirmos nossa habilidade no texto oral.
Antes que chegasse a minha vez, ou melhor, a nossa vez, pois dividiria a experiência com três companheiros, assisti a três seminários.  O primeiro introduziu a temática dos gêneros textuais, e foi conduzido de forma muito dinâmica por um grupo da turma do Leste, de forma até lúdica.  Premiando acertos.  
Turma do Leste não era bem o nome da equipe, mesmo porque a turma do Leste da sala não se restringia à equipe. Na verdade essa menção constitui-se num pretexto para que eu possa fugir um pouco do tema e abrir um parêntesis para comentar certas características de ordem sócio-demográfica e espacial do micro espaço geográfico onde ocorrem nossas aulas.

Nossa sala é um espaço interessante, nada amplo, mas  que comporta em sua área, alguns pequenos territórios.  As pessoas neles se distribuem e se posicionam e a mobilidade é quase nula.
As tentativas, não poucas, de quebrar fronteiras, integrar, por parte do Lucas não lograram êxito.  Há um imenso vazio central e ocupações ao leste e oeste, considerando-se ser  o norte a posição onde estão o quadro e a carteira do professor.  Desse modo, se você estiver apresentando um seminário para a turma, se fixar o olhar no centro, estará focando o inexorável vazio.  Para não focalizar exclusivamente no lado oriental ou ocidental, terá que lembrar-se de mover a cabeça ora à direita, ora à esquerda.
As pessoas do leste distribuem-se mais ou menos uniformemente ao longo do contínuo nordeste-sudeste.  O Oeste, por outro lado é mais polarizado.  Há uma população claramente delimitada a noroeste e outra a sudoeste.
De um modo geral, o Oeste comporta estudantes de letras e o Leste, alunos advindos de outras áreas, como estatística e informática.
Retomando o tema do seminário, o grupo nos deu uma boa panorâmica da imensa quantidade de gêneros textuais, pois são muito diversos e numerosos os contextos comunicativos.  O agrupamento desses gêneros em certos tipos com características comuns, ajuda muito a situarmo-nos na sua variedade. 
Os gêneros do grupo denominado  prescritivos são os que se caracterizam por regular ou orientar acerca dos modos de agir ( bulas, contratos, manuais, dentre outros); os ficcionais, meus preferidos, agrupam o romance, o conto, a peça teatral e similares; os expositivos referem-se a atividades textuais como aulas, seminários (argh!), e até verbetes de dicionários.  Uma outra categoria é a dos argumentativos que contempla gêneros que se marcam pela discussão e argumentação em torno de questões controversas, como o editorial, o debate, o artigo de opinião, o discurso de acusação ou de defesa, entre outros.  Finalmente, vimos também que há gêneros que se aproximam e agrupam por terem em comum, a finalidade de relatar.
Os seminários que se seguiram foram a respeito de alguns gêneros selecionados e até sorteados quando objeto de interesse de mais de uma equipe. Nós perdemos em um sorteio em que pleiteávamos ficar com o gênero Artigo de Opinião.   Acabamos tendo que nos contentar com o  Editorial.
Confesso que o primeiro seminário foi o mais marcante para mim, além do da minha equipe, naturalmente.  Destacou-se, na apresentação, um aluno que eu nunca havia posto atenção e que nos deu um show de apresentação.  Foi uma grata surpresa.  Devo dizer que desfruto de um prazer de natureza estética ao assistir a uma boa apresentação.  Mas posso transitar facilmente para o tédio profundo ao me deparar com apresentações enfadonhas.  
O segundo aconteceu no tempo restante da aula e não chegou a chamar minha atenção.  Seu tema versou sobre notícias e reportagens, que são textos de caráter mais informativo, porém que muitas vezes escorregam para o opinativo, tênue que é a fronteira que os separa desses últimos.
 O terceiro seminário foi o nosso, sobre editorial. Trouxemos além da parte conceitual, elementos para analisarmos editoriais nacionais e internacionais publicados sobre o atentado das torres gêmeas em onze de setembro de 2001.  Fizemos uma boa pesquisa, para o tempo que tínhamos.  De um modo geral a apresentação foi de boa qualidade.  Minha performance, ai, minha performance...  Culpo a posição de ser a última a falar no último horário da aula, culpo o lanche servido quando me cabia expor, culpo a própria dificuldade de enxergar a tela a certa distância e numa posição oblíqua à mesma.  Melhor dizendo, tento distribuir culpas, mas não consigo: concentro tudo em mim mesma. 
O último seminário assistido por mim foi sobre o gênero crônica, e este texto tenta ser, no seu estilo, um produto do que ali se depreendeu do que se pode definir como característico da crônica:  uso do verbo no tempo pretérito; do pronome na primeira pessoa; uma tentativa de imprimir um pouco de humor ao que seria uma situação da vida cotidiana de uma estudante, tudo isso num texto em prosa, de relativo pequeno tamanho.
O verdadeiro  último seminário, confesso,  não assisti, pois, no dia programado atrasei-me para a aula, que versaria sobre o gênero Artigo de opinião. Não assisti-lo sem dúvida dificultou minha vida, não apenas por que fui merecidamente punida esperando na última posição da longa fila para uma correção prévia desta crônica, como também porque tive que correr atrás e pesquisar, as características do gênero.  Precisava das mesmas para produzir meu próprio artigo de opinião sobre um tema polêmico. Essa seria a nossa  última avaliação.  Não dava, portanto, para confiar na intuição simplesmente, ou basear-me num raciocínio lógico-dedutivo a partir da análise dos termos que integram o próprio nome do Gênero. 
A título de desabafo, eu tenho que dizer que fico intrigada e até desgostosa por esses pequenos auto boicotes que sempre que relaxamos acontecem. Uso propositadamente o verbo na primeira pessoa do plural porque estou certa de que esses auto boicotes não são produção exclusiva da minha vida, mas não importa. Já estou às voltas com o polêmico tema das mudanças nos arranjos familiares no Brasil e o conceito de família presente no Estatuto da Família proposto e em discussão pelo Congresso nacional.

Esse será o tema do meu artigo de opinião e estou no processo de sua construção.  Lá, convido-o leitor a conhecer outra Angela Belas, pois estarei usando uma  linguagem completamente diferente, apropriada à seriedade do tema e ao próprio gênero textual. Estarei usando o verbo na terceira pessoa, e não falarei a partir dos meus sentimentos, mas apresentarei argumentos para sustentar minhas proposições.  Estarei lá, ainda serei eu, embora mais objetiva. Serei eu tentando convencê-lo da pertinência do meu ponto de vista sobre o assunto, com argumentos que, pretendo, sejam sólidos e bem construídos. Deixo o desafio a todos para resistir à abordagem que adotarei no tratamento do tema e os convido a me encontrarem lá.

Angela Belas
                                                                                       13 de maio de 2016.

Um comentário:

  1. Eu Antenor,parabéns pelo o blog,pesquisando sobre "Arte Literal" deparei-me com Carl Gustav Jung até então desconhecido...Uma coisa levou a outra nessa pesquisa e tudo haver...Valeu e pretendo dar continuidade,obrigado pelo o blog...Valeu e boa sorte...

    ResponderExcluir

Obrigada por visitar o blog e comentar