domingo, 5 de junho de 2016

Que País é esse? Recortes e recontos musicais

Que País é esse? Recortes e recontos musicais
Nas favelas, no Senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita a constituição
Mas todos acreditam[?] no futuro da nação. (Renato Russo “Que País é esse”).

Tem dias que a gente se sente como quem partiu, ou morreu. A gente estancou de repente, ou foi o mundo então que cresceu?
Na primeira citação, uma constatação. Um quadro poeirento e real que se destaca e domina a parede central da sala de estar do nosso País.  A gente estancou de repente neste ponto da sala, ou esse quadro cresceu tanto que engoliu a própria sala, sufocando-nos na sua poeira e ressuscitando em nós, que temos olhos que tentam ver e ouvidos que tentam escutar, sentimentos e dores dos que partiram, no momento que o fizeram, ou dos que morreram, no instante em que viram suas esperanças esfumarem-se?
Pai, afasta de mim esse cálice, afasta de mim esse cálice, afasta de mim esse cálice de vinho tinto de sangue.  Essa quase prece, quase mantra, musicada e socialmente referida, emerge no contexto_ aqui como intertexto_  junto com o monstro da lagoa. Mais uma vez o canto do Chico e do Milton, ecoa no espírito.  Tempos sombrios... Que sangue se mistura ao vinho desse cálice, Pai?  A voz do pensamento, quase calada, tremula, quando num fio, indaga: como tragar essa realidade?
Como  beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta


Tão sensível que qualquer beijo de novela me faz chorar, vejo o país nesse trágico momento, no preto e branco da imagem trazida pelo Zeca Baleiro em Flor da Pele: Um barco sem porto/Sem rumo, sem vela/ Cavalo sem sela/ Um bicho solto/ Um cão sem dono, um menino, um bandido [ e eu, diante disso, Zeca] Às vezes me preservo/ Noutras, suicido!

Ah, se houvesse um vapor barato! Mas o que há de barato nesse país? Vapor?  Só se for o vapor dos nossos sonhos, que tão caros foram para nós... tão caro nos custou.

Ao sul da roda da vida, um mundo de cabeça para baixo, desaba. As Moiras tecendo indiferentes, destinos,  e os pesadelos convertendo-se em realidade.   ...A noite esfriou,/O dia não veio,/O bonde não veio,/O riso não veio/Não veio a utopia/E tudo acabou/E tudo fugiu/E tudo mofou,/E agora, josé?

E agora?
Que país é esse?


Notas: Músicas citadas: Que País é esse (Renato Russo, 1978 ); Roda Viva (Chico Buarque, 1967); Cálice (Chico Buarque e Giberto Gil, 1973); Flor da Pele (Zeca Balero, 2002); E agora, José (Carlos Drumond de Andrade,musicada (1942) por Paulo Diniz. 

Um comentário:

  1. Esse foi tecido com a linha da MPB clássica de contemplação mais universalista e a MPB nova um pouco mais minimalista, mas ambas a se aproximar do drama específico dos que vivem nessa localidade geográfica e existencial.

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