Que País é esse? Recortes e recontos musicais
Nas favelas, no Senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita a
constituição
Mas todos acreditam[?]
no futuro da nação. (Renato Russo “Que País é esse”).
Tem dias que a gente se sente como
quem partiu, ou morreu. A gente estancou de repente, ou foi o mundo então que
cresceu?
Na primeira
citação, uma constatação. Um quadro poeirento e real que se destaca e domina a
parede central da sala de estar do nosso País.
A gente estancou de repente neste ponto da sala, ou esse quadro cresceu
tanto que engoliu a própria sala, sufocando-nos na sua poeira e ressuscitando
em nós, que temos olhos que tentam ver e ouvidos que tentam escutar,
sentimentos e dores dos que partiram, no momento que o fizeram, ou dos que morreram,
no instante em que viram suas esperanças esfumarem-se?
Pai, afasta de mim esse cálice, afasta
de mim esse cálice, afasta de mim esse cálice de vinho tinto de sangue. Essa quase prece, quase mantra, musicada e
socialmente referida, emerge no contexto_ aqui como intertexto_ junto com o monstro da lagoa. Mais uma vez o canto do Chico e do Milton, ecoa
no espírito. Tempos sombrios... Que
sangue se mistura ao vinho desse cálice, Pai?
A voz do pensamento, quase calada, tremula, quando num fio, indaga: como
tragar essa realidade?
Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
Tão
sensível que qualquer beijo de novela me
faz chorar, vejo o país nesse trágico momento, no preto e branco da imagem
trazida pelo Zeca Baleiro em Flor da Pele: Um
barco sem porto/Sem rumo, sem vela/ Cavalo sem sela/ Um bicho solto/ Um cão sem
dono, um menino, um bandido [ e eu, diante disso, Zeca] Às vezes me preservo/ Noutras,
suicido!
Ah,
se houvesse um vapor barato! Mas o que há de barato nesse país? Vapor? Só se for o vapor dos nossos sonhos, que tão
caros foram para nós... tão caro nos custou.
Ao
sul da roda da vida, um mundo de cabeça para baixo, desaba. As Moiras tecendo
indiferentes, destinos, e os pesadelos convertendo-se
em realidade. ...A noite esfriou,/O dia não veio,/O bonde não veio,/O riso não
veio/Não veio a utopia/E tudo acabou/E tudo fugiu/E tudo mofou,/E agora, josé?
E
agora?
Que
país é esse?
Notas: Músicas
citadas: Que País é esse (Renato Russo, 1978 ); Roda Viva (Chico Buarque, 1967);
Cálice (Chico Buarque e Giberto Gil, 1973); Flor da Pele (Zeca Balero, 2002); E
agora, José (Carlos Drumond de Andrade,musicada (1942) por Paulo Diniz.
Esse foi tecido com a linha da MPB clássica de contemplação mais universalista e a MPB nova um pouco mais minimalista, mas ambas a se aproximar do drama específico dos que vivem nessa localidade geográfica e existencial.
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