domingo, 5 de junho de 2016

Escritos





O PIOR TEXTO DO MUNDO – Atividade da Oficina de escrita criativa online
A intenção era escrever um texto recheado de clichês, o pior texto do mundo.  Apresentei alguns clichês e um desfecho que talvez possa ser pensado como pouco verissímil, porém nem tanto, eu creio. Que julgue o próprio leitor.



Fabrício
Naquele dia Fabrício acordou cedo, antes mesmo que o sol projetasse seus raios sobre a cômoda azul e que o ensurdecedor barulho do despertador do quarto da sua mãe se fizesse ouvir.
Cheio de energia, lépido, saiu da cama de um pulo e pôs-se a berrar a plenos pulmões, anunciando aos quatro ventos o seu décimo segundo aniversário. Saltitando alegre, entoava  uma musiquinha de improviso marcando o compasso com palmas, a letra resumia-se  a “Sou adolescente – te, minha bicicleta já”.
No percurso até a cozinha do pequeno apartamento, chutou sapato, boneca e até uma peruca que sua irmã pegara da mãe.  Pisou no rabo do pobre e gordo Burdião, o velho gato da família e antes que esbarrasse na mesa da cozinha e derrubasse os copos cuidadosamente alinhados por Anita, a mãe barrou-lhe o passo com a mão firme segurando-lhe o ombro; o tom austero e o timbre forte calando-lhe toda a expressividade musical.
_ Pare já com isso mocinho!  Pode ir tirando o cavalinho da chuva, pois o que precisamos mesmo é ter uma conversinha.
Tentou retrucar, e a cobrança soou mais como súplica: “Você prometeu...”.    A mãe apontou-lhe o sofá marrom manchado da sala, abriu um armário de canto onde entre outros objetos eram guardados os poucos livros da família, sacando de dentro de um envelope meio rasgado, nada menos que o seu boletim escolar.
Por cerca de uma hora o novo adolescente teve que ouvir sobre suas baixas notas escolares, seu pouco empenho nos estudos, seu mau comportamento e seu gênio irascível.  Definitivamente não receberia uma bicicleta hoje e talvez nunca.  Para culminar, sua mãe encerra o que considera ser uma conversa, com uma frase devastadora: Você só nos traz desgosto. Tão diferente da sua irmã.
De pronto a sala mergulha num silêncio tenso.  Da porta da cozinha Anita a tudo assiste, o olhar apiedado revelava sua impotência, o pano de prato roto nas mãos.  Sua irmã, da tranquilidade rósea do quarto não saiu.  Não havia muito o que fazer.  Balbuciou algo num murmúrio quase inaudível e deixou a sala, cabisbaixo, indo enterrar o rosto entre seus travesseiros, abafando os soluços, a frustração e a dor.
Não se viu Fabrício durante todo o dia do seu décimo segundo aniversário. 
A vida, que não se resume a aniversários, seguiu na casa, retomando seus rimos, cheiros tendo ao fundo o som da televisão animando a rotina doméstica.  Dona Dora, por sua vez,  firme no seu posto na poltrona que antes fora do falecido marido,  munida de controle remoto e telefone sem fio, esquecera quase por completo o incidente e o aniversário. 
Exatamente às dezoito horas daquele dia lembrou-se que não havia encomendado  uma pequena torta com a palavra Parabéns se destacando na cobertura, como costumava fazer todos os anos, independente de qualquer coisa.  Sentiu o peito apertar. Foram muitas coisas aquele ano, refletiu, suspirando, sem que isso lhe aliviasse o sentimento de desconforto.  Talvez tenha sido dura demais com o Fabrício, pensou, e deu-se conta no mesmo momento que ele não havia saído do quarto desde o incidente da manhã.  Moleque tinhoso! Saíra ao pai nesse aspecto.
Jantar pronto, mesa posta, a família mantinha o ritual de reunir-se para comer.   Essa era uma promessa que fizera ao Antônio antes dele partir dessa vida... E como fazia falta, esse homem, às vezes.  Deixou-lhe a carga toda.  Tão difícil lidar com filho homem, pensou, talvez pela centésima vez.
_ Anita, chama o Fabrício! É para ele vir jantar agora.  Pode dizer que eu estou mandando. 
Sabia como usar o tom certo, o tom de autoridade, afinal, ela era pai e mãe, tinha que ser firme, segurar as rédeas.  Esse ano ele fica sem bolo, decidiu.  Sem bolo e sem bicicleta.  Talvez assim ele comece a tomar jeito.
Seus pensamentos são interrompidos por uma sequência de gritos, choro, passos que se aproximam em correria, Renata, com o corpo tremendo convulsivamente a dois passos atrás de uma Anita, sem cor nas faces, lábios trêmulos, olhos de puro pavor, a declarar entre soluços:  ele morreu, Dona Dora, o Fabricinho tá morto.

Notas
Quando escrevi o texto pensei que a morte do personagem talvez exemplificasse uma situação de inverossimilhança, mas refletindo melhor acho que  não procede, pois o desfecho pode associar-se ao conflito que foi o foco principal da narrativa, ainda que o texto não fale explicitamente em suicídio.
O que de forma consciente introduzi como clichê, coloquei em negrito.  O próprio início é um clichê (o acordar).  Clichês não negritados possivelmente foram clichês usados inconscientemente.

Não carreguei muito nas tintas em termos de clichês porque na verdade me envolvi com a narrativa e fiquei com um pouco de pena de bagunçar muito.

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