O PIOR TEXTO DO MUNDO
– Atividade da Oficina de escrita criativa online
A intenção era escrever um texto recheado de clichês, o pior
texto do mundo. Apresentei alguns
clichês e um desfecho que talvez possa ser pensado como pouco verissímil, porém
nem tanto, eu creio. Que julgue o próprio leitor.
Fabrício
Naquele dia Fabrício acordou cedo, antes mesmo que o sol
projetasse seus raios sobre a cômoda azul e que o ensurdecedor barulho do despertador do quarto da sua mãe se fizesse
ouvir.
Cheio de energia, lépido, saiu da cama de um pulo e pôs-se a berrar a plenos pulmões, anunciando aos quatro
ventos o seu décimo segundo aniversário. Saltitando alegre, entoava uma musiquinha de improviso marcando o
compasso com palmas, a letra resumia-se a “Sou adolescente – te, minha bicicleta já”.
No percurso até a cozinha do pequeno apartamento, chutou
sapato, boneca e até uma peruca que sua irmã pegara da mãe. Pisou no rabo do pobre e gordo Burdião, o
velho gato da família e antes que esbarrasse na mesa da cozinha e derrubasse os
copos cuidadosamente alinhados por Anita, a mãe barrou-lhe o passo com a mão
firme segurando-lhe o ombro; o tom austero e o timbre forte calando-lhe toda a
expressividade musical.
_ Pare já com isso mocinho!
Pode ir tirando o cavalinho da
chuva, pois o que precisamos mesmo é ter uma conversinha.
Tentou retrucar, e a cobrança soou mais como súplica: “Você
prometeu...”. A mãe apontou-lhe o sofá
marrom manchado da sala, abriu um armário de canto onde entre outros objetos
eram guardados os poucos livros da família, sacando de dentro de um envelope
meio rasgado, nada menos que o seu boletim escolar.
Por cerca de uma hora o novo adolescente teve que ouvir
sobre suas baixas notas escolares, seu pouco empenho nos estudos, seu mau
comportamento e seu gênio irascível.
Definitivamente não receberia uma bicicleta hoje e talvez nunca. Para culminar, sua mãe encerra o que
considera ser uma conversa, com uma frase devastadora: Você só nos traz desgosto. Tão diferente da sua irmã.
De pronto a sala mergulha num silêncio tenso. Da porta da cozinha Anita a tudo assiste, o olhar
apiedado revelava sua impotência, o pano de prato roto nas mãos. Sua irmã, da tranquilidade rósea do quarto
não saiu. Não havia muito o que
fazer. Balbuciou algo num murmúrio quase
inaudível e deixou a sala, cabisbaixo, indo enterrar o rosto entre seus
travesseiros, abafando os soluços, a frustração e a dor.
Não se viu Fabrício durante todo o dia do seu décimo segundo
aniversário.
A vida, que não se resume a aniversários, seguiu na casa,
retomando seus rimos, cheiros tendo ao fundo o som da televisão animando a
rotina doméstica. Dona Dora, por sua
vez, firme no seu posto na poltrona que
antes fora do falecido marido, munida de
controle remoto e telefone sem fio, esquecera quase por completo o incidente e o
aniversário.
Exatamente às dezoito horas daquele dia lembrou-se que não
havia encomendado uma pequena torta com
a palavra Parabéns se destacando na cobertura, como costumava fazer todos os
anos, independente de qualquer coisa. Sentiu o peito apertar. Foram muitas coisas aquele ano, refletiu, suspirando, sem que isso
lhe aliviasse o sentimento de desconforto.
Talvez tenha sido dura demais com o Fabrício, pensou, e deu-se conta no
mesmo momento que ele não havia saído do quarto desde o incidente da manhã. Moleque tinhoso! Saíra ao pai nesse
aspecto.
Jantar pronto, mesa posta, a família mantinha o ritual de
reunir-se para comer. Essa era uma
promessa que fizera ao Antônio antes dele partir dessa vida... E como fazia
falta, esse homem, às vezes. Deixou-lhe
a carga toda. Tão difícil lidar com
filho homem, pensou, talvez pela centésima vez.
_ Anita, chama o Fabrício! É para ele vir jantar agora. Pode dizer que eu estou mandando.
Sabia como usar o tom certo, o tom de autoridade, afinal,
ela era pai e mãe, tinha que ser firme, segurar
as rédeas. Esse ano ele fica sem
bolo, decidiu. Sem bolo e sem
bicicleta. Talvez assim ele comece a
tomar jeito.
Seus pensamentos são
interrompidos por uma sequência de gritos, choro, passos que se aproximam em
correria, Renata, com o corpo tremendo convulsivamente a dois passos atrás de uma
Anita, sem cor nas faces, lábios trêmulos, olhos de puro pavor, a declarar
entre soluços: ele morreu, Dona Dora, o Fabricinho tá morto.
Notas
Quando escrevi o texto pensei que a morte do personagem
talvez exemplificasse uma situação de inverossimilhança, mas refletindo melhor
acho que não procede, pois o desfecho
pode associar-se ao conflito que foi o foco principal da narrativa, ainda que o
texto não fale explicitamente em suicídio.
O que de forma consciente introduzi como clichê, coloquei em
negrito. O próprio início é um clichê (o
acordar). Clichês não negritados
possivelmente foram clichês usados inconscientemente.
Não carreguei muito
nas tintas em termos de clichês porque na verdade me envolvi com a
narrativa e fiquei com um pouco de pena de bagunçar muito.

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