domingo, 5 de junho de 2016

Memórias de livros, escritas e leitura: a construção da minha relação com a leitura e a escrita

. Capítulo I. A experiência na escola.



Cartilha do Dudu: Quem sou eu? Este livro-cartilha foi o meu primeiro. O primeiro com o qual estabeleci aos sete anos de idade, uma relação de posse e consumo.  A impressão que aquele objeto produzia em mim não era das mais positivas.  Em verdade frustrava-me o fato de parecer uma espécie de arremedo de livro: ilustrações sem colorido, encadernação precária.  O livro ia sendo composto a cada dia, quando recebíamos as folhas com as lições correspondentes. De um início com letras e algumas palavras soltas, evoluíamos para combinações de palavras que, de alguma forma contavam uma história, passando pela apresentação dos personagens, Dudu, Papai, mamãe, etc.  Eu acompanhava o crescimento do texto e seu adensamento com muda expectativa.  Parecia-me, entretanto, excessivamente letrado e denso durante a enfadonha tarefa de copiar suas páginas.
A minha história no mundo da leitura e até da escrita se produzia junto, na passagem por esse livro feio, que era, entretanto a chave para uma dimensão maravilhosamente ampla, viva e colorida que a partir daí, iria descobrir. Depois do meu nascimento, esse foi o meu primeiro e mais importante portal dimensional, atravessado em 1965, durante a iniciação escolar, primeiro ano primário, no Grupo Escolar Raul Cardoso de Almeida num bairro ao sul da cidade de S.Paulo.
Eu fui tocada pelo ato de escrever quando passei a usar as chaves que o mundo do Dudu, feio e pobre, me proporcionaram para destrancar portas em livros que me levavam, na prosa ou na poesia, a mundos e dimensões amplas, montada nas asas da imaginação minha e dos autores.  Descobri, desse jeito,  o enlevo e o prazer estético.
Nas atividades de composição, eu me projetava na figura do escritor. Imaginava que com eles ocorria a mesma mágica que sentia acontecer comigo, quando me era dado um tema para, em cima, compor um texto. A inspiração “baixava” e guiava todo o processo. Introduzia, desenvolvia e concluía o texto, numa relação de profundo prazer e relaxamento.
A escola me proporcionou a descoberta e acesso à biblioteca.  E com isso a minha própria casa passou a dar abrigo a ilustres como José de Alencar, Machado de Assis, Érico Veríssimo, Castro Alves e vários outros.  Nada escapava, a partir daí, ao meu voraz e democrático apetite por leitura, Nessa relação há outros capítulos e personagens, mesmo em concomitância com a experiência escolar. Apenas a título de menção, no âmbito da casa e relações familiares, a leitura e escrita foi principalmente rota de fuga e espaço, também, de auto- reflexão e marcação identitária.


Salvador, 26/02/2016

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