. Capítulo I. A experiência na escola.
Cartilha do Dudu: Quem
sou eu? Este livro-cartilha foi o meu primeiro. O primeiro com o qual
estabeleci aos sete anos de idade, uma relação de posse e consumo. A impressão que aquele objeto produzia em mim
não era das mais positivas. Em verdade
frustrava-me o fato de parecer uma espécie de arremedo de livro: ilustrações
sem colorido, encadernação precária. O
livro ia sendo composto a cada dia, quando recebíamos as folhas com as lições
correspondentes. De um início com letras e algumas palavras soltas, evoluíamos para
combinações de palavras que, de alguma forma contavam uma história, passando
pela apresentação dos personagens, Dudu, Papai, mamãe, etc. Eu acompanhava o crescimento do texto e seu
adensamento com muda expectativa. Parecia-me,
entretanto, excessivamente letrado e denso durante a enfadonha tarefa de copiar
suas páginas.
A minha história no
mundo da leitura e até da escrita se produzia junto, na passagem por esse livro
feio, que era, entretanto a chave para uma dimensão maravilhosamente ampla,
viva e colorida que a partir daí, iria descobrir. Depois do meu nascimento,
esse foi o meu primeiro e mais importante portal dimensional, atravessado em
1965, durante a iniciação escolar, primeiro ano primário, no Grupo Escolar Raul
Cardoso de Almeida num bairro ao sul da cidade de S.Paulo.
Eu fui tocada pelo ato
de escrever quando passei a usar as chaves que o mundo do Dudu, feio e pobre,
me proporcionaram para destrancar portas em livros que me levavam, na prosa ou
na poesia, a mundos e dimensões amplas, montada nas asas da imaginação minha e
dos autores. Descobri, desse jeito, o enlevo e o prazer estético.
Nas atividades de
composição, eu me projetava na figura do escritor. Imaginava que com eles
ocorria a mesma mágica que sentia acontecer comigo, quando me era dado um tema
para, em cima, compor um texto. A inspiração “baixava” e guiava todo o
processo. Introduzia, desenvolvia e concluía o texto, numa relação de profundo
prazer e relaxamento.
A escola me
proporcionou a descoberta e acesso à biblioteca. E com isso a minha própria casa passou a dar
abrigo a ilustres como José de Alencar, Machado de Assis, Érico Veríssimo,
Castro Alves e vários outros. Nada
escapava, a partir daí, ao meu voraz e democrático apetite por leitura, Nessa
relação há outros capítulos e personagens, mesmo em concomitância com a
experiência escolar. Apenas a título de menção, no âmbito da casa e relações
familiares, a leitura e escrita foi principalmente rota de fuga e espaço, também,
de auto- reflexão e marcação identitária.
Salvador, 26/02/2016

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