Oficina
de Leitura e Produção de Textos é um dos componentes curriculares de primeiro
semestre do curso de Letras Vernáculas da minha Universidade. Uma disciplina
eminentemente prática e que produziu em mim, as melhores expectativas. Vou
escrever, escrever e escrever, dancei, feliz, em pensamento e de fato, escrevi. Nosso bom Lucas, aluno de doutorado, assumindo
com muita competência a condução da classe como parte do seu estágio docente,
bem o sabe: importunei-o não poucas vezes com textos fora do script, como uma pedinte faminta por
atenção literária.
Quando
a palavra seminário foi proferida certo dia e definiu-se que seria este um dos
instrumentos de avaliação, abriu-se o chão do céu onde eu me sentia viver e um
calafrio percorreu-me o corpo e a alma
enquanto afundava nas águas do poço escuro do medo. The
winter is coming, essa imagem do
próximo livro da série literária The
games of thrones , do George R.R. Martin, assomou à minha mente e vi-me
quase congelada com tudo no meu entorno, mergulhada num inverno hostil e
devastador. Acabou-se o meu conforto.
No
meu íntimo protestei com um pensamento meio anêmico, um débil lamento de alguém
vencido: “mas eu queria apenas escrever”.
Com pesar constatei que não podia mais enganar a mim mesma. Havia aprendido no decurso das aulas, que o
próprio conceito de texto era bem mais amplo do que a definição a qual ainda me
apegava; não se reduzia a texto escrito.
Entre outras referências, lembro-me de uma estudiosa na área, de
sobrenome Goldstein, a quem fui apresentada através de um livro de sua autoria.
A Goldstein enfatiza com todas as letras que toda produção linguística que apresenta
sentido completo e unidade, é texto, seja oral ou escrito. Com isso, realmente eu me senti a própria
encarnação do senso comum. O fato é que era
chegada a hora de exibirmos nossa habilidade no texto oral.
Antes
que chegasse a minha vez, ou melhor, a nossa vez, pois dividiria a experiência
com três companheiros, assisti a três seminários. O primeiro introduziu a temática dos gêneros
textuais, e foi conduzido de forma muito dinâmica por um grupo da turma do
Leste, de forma até lúdica. Premiando acertos.
Turma
do Leste não era bem o nome da equipe, mesmo porque a turma do Leste da sala
não se restringia à equipe. Na verdade essa menção constitui-se num pretexto
para que eu possa fugir um pouco do tema e abrir um parêntesis para comentar
certas características de ordem sócio-demográfica e espacial do micro espaço
geográfico onde ocorrem nossas aulas.
Nossa sala é um espaço interessante, nada amplo, mas que comporta em sua área, alguns pequenos
territórios. As pessoas neles se
distribuem e se posicionam e a mobilidade é quase nula.
As
tentativas, não poucas, de quebrar fronteiras, integrar, por parte do Lucas não
lograram êxito. Há um imenso vazio
central e ocupações ao leste e oeste, considerando-se ser o norte a posição onde estão o quadro e a
carteira do professor. Desse modo, se
você estiver apresentando um seminário para a turma, se fixar o olhar no
centro, estará focando o inexorável vazio.
Para não focalizar exclusivamente no lado oriental ou ocidental, terá
que lembrar-se de mover a cabeça ora à direita, ora à esquerda.
As
pessoas do leste distribuem-se mais ou menos uniformemente ao longo do contínuo
nordeste-sudeste. O Oeste, por outro
lado é mais polarizado. Há uma população
claramente delimitada a noroeste e outra a sudoeste.
De
um modo geral, o Oeste comporta estudantes de letras e o Leste, alunos advindos
de outras áreas, como estatística e informática.
Retomando
o tema do seminário, o grupo nos deu uma boa panorâmica da imensa quantidade de
gêneros textuais, pois são muito diversos e numerosos os contextos
comunicativos. O agrupamento desses
gêneros em certos tipos com características comuns, ajuda muito a situarmo-nos
na sua variedade.
Os
gêneros do grupo denominado prescritivos
são os que se caracterizam por regular ou orientar acerca dos modos de agir (
bulas, contratos, manuais, dentre outros); os ficcionais, meus preferidos,
agrupam o romance, o conto, a peça teatral e similares; os expositivos referem-se
a atividades textuais como aulas, seminários (argh!), e até verbetes de
dicionários. Uma outra categoria é a dos
argumentativos que contempla gêneros que se marcam pela discussão e
argumentação em torno de questões controversas, como o editorial, o debate, o
artigo de opinião, o discurso de acusação ou de defesa, entre outros. Finalmente, vimos também que há gêneros que
se aproximam e agrupam por terem em comum, a finalidade de relatar.
Os
seminários que se seguiram foram a respeito de alguns gêneros selecionados e
até sorteados quando objeto de interesse de mais de uma equipe. Nós perdemos em
um sorteio em que pleiteávamos ficar com o gênero Artigo de Opinião. Acabamos tendo que nos contentar com o Editorial.
Confesso
que o primeiro seminário foi o mais marcante para mim, além do da minha equipe,
naturalmente. Destacou-se, na
apresentação, um aluno que eu nunca havia posto atenção e que nos deu um show
de apresentação. Foi uma grata
surpresa. Devo dizer que desfruto de um
prazer de natureza estética ao assistir a uma boa apresentação. Mas posso transitar facilmente para o tédio
profundo ao me deparar com apresentações enfadonhas.
O
segundo aconteceu no tempo restante da aula e não chegou a chamar minha
atenção. Seu tema versou sobre notícias
e reportagens, que são textos de caráter mais informativo, porém que muitas
vezes escorregam para o opinativo, tênue que é a fronteira que os separa desses
últimos.
O terceiro seminário foi o nosso, sobre
editorial. Trouxemos além da parte conceitual, elementos para analisarmos
editoriais nacionais e internacionais publicados sobre o atentado das torres
gêmeas em onze de setembro de 2001.
Fizemos uma boa pesquisa, para o tempo que tínhamos. De um modo geral a apresentação foi de boa
qualidade. Minha performance, ai, minha
performance... Culpo a posição de ser a
última a falar no último horário da aula, culpo o lanche servido quando me
cabia expor, culpo a própria dificuldade de enxergar a tela a certa distância e
numa posição oblíqua à mesma. Melhor
dizendo, tento distribuir culpas, mas não consigo: concentro tudo em mim
mesma.
O
último seminário assistido por mim foi sobre o gênero crônica, e este texto
tenta ser, no seu estilo, um produto do que ali se depreendeu do que se pode
definir como característico da crônica: uso
do verbo no tempo pretérito; do pronome na primeira pessoa; uma tentativa de
imprimir um pouco de humor ao que seria uma situação da vida cotidiana de uma
estudante, tudo isso num texto em prosa, de relativo pequeno tamanho.
O
verdadeiro último seminário, confesso, não assisti, pois, no dia programado
atrasei-me para a aula, que versaria sobre o gênero Artigo de opinião. Não
assisti-lo sem dúvida dificultou minha vida, não apenas por que fui
merecidamente punida esperando na última posição da longa fila para uma correção
prévia desta crônica, como também porque tive que correr atrás e pesquisar, as
características do gênero. Precisava das
mesmas para produzir meu próprio artigo de opinião sobre um tema polêmico. Essa
seria a nossa última avaliação. Não dava, portanto, para confiar na intuição
simplesmente, ou basear-me num raciocínio lógico-dedutivo a partir da análise
dos termos que integram o próprio nome do Gênero.
A
título de desabafo, eu tenho que dizer que fico intrigada e até desgostosa por
esses pequenos auto boicotes que sempre que relaxamos acontecem. Uso
propositadamente o verbo na primeira pessoa do plural porque estou certa de que
esses auto boicotes não são produção exclusiva da minha vida, mas não importa. Já
estou às voltas com o polêmico tema das mudanças nos arranjos familiares no
Brasil e o conceito de família presente no Estatuto da Família proposto e em
discussão pelo Congresso nacional.
Esse
será o tema do meu artigo de opinião e estou no processo de sua
construção. Lá, convido-o leitor a
conhecer outra Angela Belas, pois estarei usando uma linguagem completamente diferente, apropriada
à seriedade do tema e ao próprio gênero textual. Estarei usando o verbo na terceira
pessoa, e não falarei a partir dos meus sentimentos, mas apresentarei
argumentos para sustentar minhas proposições.
Estarei lá, ainda serei eu, embora mais objetiva. Serei eu tentando
convencê-lo da pertinência do meu ponto de vista sobre o assunto, com
argumentos que, pretendo, sejam sólidos e bem construídos. Deixo o desafio a
todos para resistir à abordagem que adotarei no tratamento do tema e os convido
a me encontrarem lá.
Angela Belas
13 de maio de 2016.